Gosta de ‘Ocarina of Time’? Então NÃO leia esse mangá!

Sabe aquele velho estigma de que não dá pra traduzir bem uma mídia pra outra porque senão fica uma porcaria? Por exemplo: filme  de jogo, jogo de filme e similares. Claro, há exceções à regra, como o anime de Persona 4 ou o jogo do Homem-Aranha 2 do Sam Raimi. O que definitivamente NÃO é exceção à regra é a adaptação em mangá do clássico do Nintendo 64, The Legend of Zelda: Ocarina of Time. Sério.

A adaptação em mangá tem um objetivo bem simples: adaptar os eventos do jogo na forma do quadrinho japonês e fazer algumas alterações no enredo para compensar pela ausência de elementos de gameplay, sem alterar a ideia geral do jogo.

Logo ao se deparar com o mangá, eu já encontrei uma alteração que, embora faça sentido, me causou um incômodo relativamente grande: o Link, protagonista de todos os jogos, fala. Ok, certo. É um mangá. A narrativa aqui funciona diferente: o protagonista não é mais um receptáculo do jogador, então seria bem esquisito ele não falar e só emitir grunhidos e gritos.

O problema é que, embora ele precise falar para ter uma personalidade e ser, de fato, um personagem, você encontra logo dois problemas enormes. O primeiro é que o Link não só fala, como ele não cala a boca. Não existe uma única página em que o protagonista não monopolize os diálogos. Ele se torna um personagem cansativo e irritante, principalmente por causa do segundo problema, que é imperdoável: os diálogos são absolutamente TERRÍVEIS.

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Mesmo com esse erro no escaneamento (falha minha), dá para ver que os diálogos são péssimos. Além disso, o Link não cala a boca e não existe um momento de respiro para dar peso aos acontecimentos. Tudo é muito corrido.

 

Sabe como o quadrinho te mostra o que acontece ao invés de te descrever, como um livro faz? Pois é, aqui o Link basicamente fica descrevendo o que acontece de forma extremamente desnecessária, besta e irritante (quem jogou o jogo, sabe que essa era um problema com a Navi, a fadinha). Fica tudo meio forçado e com uma cara de shounen ruim e mal escrito. Bem, o mangá É mal escrito e essa é só uma das características que denunciam isso.

O outro problema está justamente no desenvolvimento dos personagens. O Link praticamente não tem personalidade no começo do mangá e, no final, continua com nenhuma. Ele fica pensando na Zelda o tempo todo sendo que eles se encontraram literalmente apenas uma vez no enredo. Sem contar que ele demonstra algumas características do nada, como uma sagacidade e inteligência que ele nunca antes nem pareceu ter. A maioria dos personagens que Link encontra no caminho só aparecem por, no máximo, 3 ou 4 páginas e você quase instantaneamente esquece deles, o que nos leva a outro enorme e grotesco problema dessa adaptação.

O enredo é EXTREMAMENTE corrido. Os maiores conflitos do mangá duram muito pouco, ao ponto de, em alguns momentos, durarem uma ou duas páginas e, quando muito, três. Uma coisa icônica e muito importante dos jogos de Zelda são seus níveis de exploração, quebra-cabeças e, acima de tudo, a sensação de perigo ao desbravar uma dungeon, que é um dos focos principais dos conflitos do jogo.

No mangá, a única coisa que realmente aparece é o chefe da dungeon e que, em todos os casos, o Link derrota em uma página. Há pouco espaço para a trama e os personagens secundários se desenvolverem. Tudo parece não ter nenhuma importância quando acontece e fica meio sem graça.

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Alguém consegue me dizer o que diaboss aconteceu nessa página? Mesmo com o contexto da página anterior, não faz sentido. Esse mangá é uma bagunça visual!

Visualmente, o mangá também é meio conturbado. O estilo de arte é bem adequado para o clima de Ocarina of Time, especialmente com uma pegada bem “mangá típico dos anos 90”, que, para mim, pelo menos, é agradável aos olhos. Os elogios param por aqui, no entanto, porque as páginas são extremamente desorganizadas. Na verdade, elas são tão bagunçadas que fica difícil de entender o que acontece em diversas cenas.

Eu também tive problemas com a apresentação física do volume, o que já é culpa da distribuidora, a Panini. Na minha cópia do quadrinho, dá para ver alguns erros de impressão que tornam algumas páginas quase ilegíveis. Eu li em alguns reviews na internet que algumas pessoas receberam o mangá com algumas páginas sem o recorte de separação, o que também é um descuido bem feio.

Reprodução/Panini
Tá vendo esse efeito de desfoque? Não é problema com a imagem que eu postei. O mangá veio assim fisicamente. A apresentação pela Panini veio bem ruim e não foi só comigo.

Esse, pra mim, acaba sendo o principal problema do mangá num geral. O visual confuso aliado de um enredo corrido e personagens mal escritos acabam estragando a experiência completa. É realmente uma pena, uma vez que o enredo de Ocarina of Time é bastante simples e daria uma ótima adaptação, se feito da forma certa.

Eu sei que minha opinião sobre esse mangá é bastante impopular, visto que a maioria das críticas que eu li são positivas. No entanto, eu pessoalmente achei ele uma porcaria e não me restrinjo a malhar a obra, principalmente pelo fato de que ela foi feita de uma forma vergonhosamente ruim e até mesmo desleixada. No final das contas, essa é uma leitura que eu não recomendo a ninguém e achei que, de verdade, foi dinheiro jogado fora.

The Legend of Zelda: Ocarina of Time – Perfect Edition é distribuído no Brasil pela Panini Comics sob o selo Planet Manga.

Eu comprei ele por aqui, mas eu realmente recomendo que você não perca seu tempo.

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“The Injection” brinca com o limiar entre fantasia e sci-fi, mas não prende

The Injection é um quadrinho que eu não sei dizer se me prendeu ou se me perdeu. Por mais que eu ache difícil lidar com o contraste entre a arte cartunesca e o enredo soturno e violento, a ideia de misturar antigas lendas da Grã-Bretanha (como spriggans pixies, por exemplo) com um cenário mais moderno em que as pessoas tentam racionalizar quase tudo cientificamente de certa forma.

The Injection tem muitos jargões governamentais, o que dá um fortíssimo ar de realismo à coisa toda. A Inglaterra ter ministérios secretos que tratam de assuntos sobrenaturais é algo que me remete bastante àquele ar de “Liga Extraordinária” misturado com “007”.

Mas, dito isso, o enredo é surpreendentemente simples. Cinco pessoas extraordinárias em suas respectivas áreas, foram reunidas para pensar em formas de mudar o futuro, uma vez que pelas projeções (aqueles cálculos que os personagens geralmente dizem que fizeram, mas ninguém explica ou pergunta a lógica deles), a sociedade iria parar de evoluir em algum ponto, ficando presa a uma constante.

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O HQ tem uma vibe bem Arquivo X também. Coisas bem bizarras acontecem e os protagonistas têm que “resolver”

Com isso, os cinco tomam a decisão de “envenenar” o mundo com uma inteligência artificial misturada com uma entidade sobrenatural. O problema é que isso acaba saindo um pouco de controle e essa entidade, que eles chamam de A Injeção (daí o nome do HQ), começa a causar problemas fora do comum, como ocorrências “sobrenaturais” e bizarras.

Um elemento que eu achei incrível é o fato da Injeção não ser só um elemento narrativo, mas ser uma parte muito importante da narrativa em um nível metalinguístico (eu estou deixando isso vago de propósito porque eu estragaria o grande plot twist do primeiro volume).

No entanto, eu não sei dizer bem o motivo pelo qual o quadrinho não me pegou de vez. Ele tem todos os motivos para que eu ficasse absolutamente vislumbrado com o enredo, mas eu simplesmente não consegui. A narrativa, enquanto legal e misteriosa, faz com que você se sinta perdido demais para dar a mínima para o que está acontecendo. Ela é não linear e bastante elusiva.

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Aqui a gente vê como que o sci-fi e a fantasia se encontram. Mesmo com essa premissa, a narrativa deixa a desejar

Em outras palavras, Warren Ellis (que também escreveu Trees) acaba caindo no exagero do mistério ao não explicar sua premissa. A escrita dele também tenta tomar uma rota similar à de Trees ao dar narrativas e personalidades bem diferentes para cada personagem. O problema é que, diferente do outro HQ, aqui isso não funcionou e cada personagem continua restrito a umas três ou quatro características básicas.

A narrativa em si é meio truncada e inconsistente na maior parte do tempo. Passa a sensação de muitas coisas deixadas em aberto ao mesmo tempo e você não sabe o que acompanhar e acaba confuso e sem entender.

No fim das contas, The Injection é um daqueles HQs difíceis de determinar se é bom ou se é só “meh”. Eu li 2 dos 3 volumes e já sei que não vou continuar lendo, o que é uma pena. No entanto, talvez isso não seja definitivo, já que o HQ vai ganhar uma adaptação para a TV. Quem sabe não dá uma melhorada?

The Injection é distribuída pela Image Comics. Eu comprei o volume 1 aqui e o volume 2 aqui.

“Witches” é um mangá misterioso, onírico e de um visual incomparável

Todo o meu processo de encontrar Witches foi bem imbuído de uma sensação estranha de misticismo. Comprei os dois volumes de uma vez só na Bienal do Livro aqui em Brasília pela capa e pelo mistério: as capas de cada volume não expunham nada, apenas os rostos do que eram claramente personagens. E, também, havia o fato de nem eu, nem o vendedor do stand sabermos nada sobre aquele mangá.

Pensei em pesquisar no Google, mas algo me dizia que eu não deveria fazer isso, que estragaria a leitura. Acabei indo pela minha lógica de “se for ruim, pelo menos a arte parece boa” e levando os dois volumes misteriosos do mangá para casa. Quando sentei para ler, fiquei ao mesmo tempo intrigado e fascinado pelo mangá.

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Logo ao abrir, você se depara com isso aqui. A arte e o enredo do mangá são sensacionais e só essa introdução a ele diz muito.

Witches é um quadrinho que conta quatro grandes histórias (SpindleKuarupu, Petra Genitalix e A Ladra de Canções), todas completamente desconectadas umas das outras. Ou seja, é uma antologia. No entanto, é difícil não sentir que todas elas compartilham do mesmo mundo, devido a todo o mote de misticismo, imagens oníricas e o ponto em comum de ver a vida na cidade grande como algo negativo e caótico (o que é uma característica da escrita de Daisuke Igarashi, como visto em Little Forest, outra obra do autor).

Algo que me chamou bastante a atenção é que todas as histórias, com a exceção de uma, se passam fora do Japão e fazem inúmeras alusões às culturas dos locais em que se passam. Por exemplo, Spindle, a primeira história do primeiro volume, se passa inteiramente em Ancara, capital da Turquia, e toca na história do Império Bizantino, além de retratar pratos e iguarias tradicionais, tapeçarias, a arquitetura e até a cultura local dos grandes bazares tradicionais.

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Eu acabei precisando pegar essa imagem da internet porque ela é dividida em duas páginas no mangá físico e fica difícil de ver em todos os detalhes, mas olha isso. Dá para notar que foi um desenho feito inteiramente à mão.

A escrita é bastante onírica e sempre fazem com que o leitor se sinta meio desconfortável ao ver algumas atitudes esquisitas dos personagens, o que passa de forma sutil e implícita a presença da magia que perpassa o cotidiano dos personagens representados.

Cada uma das histórias, sem exceção, têm aquela vibe de “não entendi, mas entendi”, apelando para o instinto do leitor, sem explicar tudo o que acontece de forma óbvia. Isso é realmente muito refrescante e agradável, uma vez que muitos mangás pesam bastante a mão na hora de explicar o que está acontecendo, sem deixar muito espaço para interpretação.

 

Falando em representação, eu preciso dizer que, sem eira nem beira, a arte de Daisuke Igarashi é de cair o queixo. Os cenários são todos desenhados à mão, sem a utilização de estêncis e, em alguns casos, até sem retícula, o que não é só impressionante, como é  fácil de perceber. Dá para ver os rabiscos e o nível quase cirúrgico de atenção a detalhe e simetria da mão do autor, o que mostra o tanto de carinho e talento que ele colocou em cada página.

 Tudo isso dito, eu preciso admitir que Witches não é um mangá para todo mundo. Ele tem um ritmo constante, mas um pouquinho lento, que te leva ao clímax de cada história a um passo de cada vez. Nenhuma das histórias retratadas tem momentos absurdos de ação e diálogos dramáticos, te dando uma sensação mista de alta-fantasia com realismo.

Ao juntarmos tudo isso ao fato de ser uma antologia e cada história ser contida em si mesma, cada uma começando do zero (inclusive com o ritmo), a leitura pode se tornar um pouco cansativa. Mesmo sendo só dois volumes, eu demorei mais de uma semana para terminar, justamente pela sensação de peso. No entanto, pessoalmente, eu achei isso algo muito positivo.

Witches foi publicada no Brasil em dois volumes distribuídos pela Panini e pela Planet Manga. Você pode comprar o volume 1 aqui e o volume 2 aqui.

 

O motivo do meu sumiço

Bem, pessoal, como alguns de vocês já devem ter percebido, tem algum tempo que eu não posto. Três semanas para ser mais exato. Eu sei que não é muita gente que lê meu blog, mas ainda acho que devo algumas explicações, ainda mais que eu tava bem empolgado com o projeto e tudo mais. Continuar lendo “O motivo do meu sumiço”

Especial de Sábado: “Opus” é uma obra surrealista e metanarrativa que todo fã de mangá deve ler

Opus é um mangá metanarrativo escrito por Satoshi Kon (criador de PaprikaPerfect Blue e um dos colaboradores de A Viagem de Chihiro ao lado de Hayao Miyazaki) que gosta de brincar com a sua cabeça. Continuar lendo “Especial de Sábado: “Opus” é uma obra surrealista e metanarrativa que todo fã de mangá deve ler”

O primeiro volume de “Alias” é soturno, divertido e pé-no-chão, mas tem problemas visuais

Quem me conhece, sabe que eu larguei os quadrinhos de super-heróis tem tempo. Enjoei bastante do gênero por vários motivos: geralmente não dá para começar um quadrinho sem ter lido pelo menos uns 8 outros que saíram antes sem ficar desorientado; as narrativas por muitas vezes ficam sem mastigando demais para vender os almanaques menores; algumas histórias simplesmente são bobas e sem graça (opinião impopular) e, o motivo principal: não há riscos. Quase ninguém morre e fica morto até o fim. Todos os super-heróis parecem ter um complexo de Jesus Cristo, incapazes de morrerem por muito tempo (mesmo assim, eu gosto bastante dos filmes da Marvel).

Dito isso, Alias, o quadrinho solo da Jessica Jones, não é nada disso. Quando eu comecei a ler, fui com sentimentos mistos. Eu vi a série da Netflix (gostei bastante da 1ª temporada, inclusive) e me disseram que ela era pesadamente baseada nesse HQ, então decidi dar uma chance. Não me arrependi.

A história de Alias é bastante sóbria, realista, pé-no-chão e até meio sombria. Jessica Jones, super-heroína aposentada, tem problemas financeiros, fala bastante palavrão, fuma e bebe pra caramba, sente medo e só quer viver a vida dela em paz. Resumindo: gente como a gente. Parece uma pessoa real, assim como todos os outros personagens que aparecem no quadrinho, o que é um toque muito bem vindo ao universo dos quadrinhos da Marvel.

Reprodução/Panini
Uma das coisas mais legais de Alias é como os diálogos são bem cotidianos (inclusive, a tradução é ótima)

O primeiro volume distribuído pela Panini reúne os 10 primeiros capítulos da detetive particular e engloba três arcos principais. O primeiro envolve uma conspiração de nível nacional envolvendo uma fita cassete (esse quadrinho começou em 2001, para você ver como algumas coisas ficam datadas) que Jessica grava que acidentalmente revela a identidade secreta do Capitão América.

O segundo, que é bem mais “light” por assim dizer, envolve Jessica tentando encontrar uma pessoa nas ruas de Nova Iorque que está, supostamente, em perigo. Já o terceiro é bem curtinho e envolve a vez em que Jessica é contratada pelo Clarim Diário para descobrir e expor a identidade secreta do Homem Aranha.

Apesar de serem histórias muito interessantes, é importante apontar os pontos negativos. Por mais que, pessoalmente, eu não goste muito de criticar o lado visual dos HQs, a arte não agradou muito (tirando a do terceiro arco desse primeiro volume). Eu entendo que, por ser um quadrinho do Selo MAX*, voltado para adultos e com um foco mais sombrio, a arte teria que ser um pouco mais soturna.

O problema é quando ela exagera nas sombras e, com isso, perde-se muito da humanização dos personagens (principalmente os olhos) e eles ficam parecendo, sem brincadeira, monstros bizarros que saíram dos seus pesadelos de quando você era criança. Também não ajuda misturar esse tanto de sombra com uma paleta de cores pastel. Fica esquisito e acaba se tornando uma estética datada e esquisita.

Reprodução/Panini
O meu maior problema com essa HQ foi a arte. Aqui dá pra ver bem o quanto esse exagero nas sombras prejudica o visual, com a Jessica parecendo um demônio de Supernatural

Outro problema que a série tem, e esse é mais estrutural que estético, é a organização dos quadrinhos. Esse é um HQ que tem várias páginas duplas, mas parece que não sabe como aproveitá-las enquanto conta a história.

Enquanto você tem um painel de duas páginas, você também tem vários quadrinhos o sobrepondo, muitas vezes nos quatro cantos das páginas. A informação fica confusa e dá até pra se perder, uma vez que você não sabe se esses quadrinhos estão organizados horizontal ou verticalmente (parece um erro básico de quem começou a ler ontem, mas, nesse HQ. isso acontece com frequência).

Fora isso, é uma leitura e tanto, especialmente porque a perspectiva da Jessica é muito bem passada para o leitor. Os pensamentos dela não são de narrador onisciente e ela fica tão surpresa quando você quando uma reviravolta acontece, aumentando bastante aquela sensação de intimidade com a personagem.

Reprodução/Panini
Uma coisa que Alias faz certo é a utilização de quadrinhos repetidos ou similares para dar uma atmosfera de tensão ou de lentidão. Nesses momentos, o roteiro e o visual carregam um ao outro muito bem.

O jeito que cada trama se desenvolve também é bastante agradável. Em momento algum a história fica parada demais (coisa que, infelizmente, acontece frequentemente na série) e nada acontece. Os acontecimentos e pensamentos são bem cadenciados e a escrita carrega bastante do HQ, que usa bastante da repetição de quadrinhos para efetivamente dar uma atmosfera cotidiana e mais lenta.

*O que é o Selo Max? O Selo Max é uma vertente editorial da Marvel criada no início dos anos 2000 que voltou seu olhar ao público adulto com cenas com conteúdo explícito e não adequado para menores de 18 anos. Alguns dos principais títulos do selo são BladeJusticeiro MAX e, claro, Alias.

Alias foi lançada em 2001 e terminou em 2004, mas está sendo relançada pela Panini no Brasil em formato capa dura. Você pode encontrar o primeiro volume aqui e o segundo aqui. Farei resenha do segundo volume em breve. Fiquem ligados!

“Talco de Vidro” leva o enredo existencialista em seu próprio ritmo

Quando eu li Talco de Vidro de Marcello Quintanilha pela primeira vez, eu tinha acabado de terminar Tungstênio. Eu tinha achado que encontraria algo similar: um suspense de ritmo acelerado que explora os personagens enquanto a história se acelera em ritmo vertiginoso. Enquanto o aproveitamento da protagonista é enorme, a cadência dos fatos no enredo em si é completamente diferente e toma seu próprio tempo, o que determina um foco diferente nesse HQ.

O enredo acompanha as ruminações internas e acontecimentos da vida de Rosângela, uma dentista que viveu a vida toda na esfera da classe média-alta. Durante boa parte do quadrinho, a mente de Rosângela reflete sobre se sentir superior às pessoas que não fazem parte dessa “panelinha high-society” que ela participa com o até então marido, mas sem aceitar que ela realmente pensa isso.

No entanto, a “bolha” de Rosângela é sempre estourada na presença ou mera lembrança de sua prima, Daniele, de quem ela claramente tem inveja por apesar de ser divorciada (Rosângela deixa bem claro que acha o divórcio algo terrível de acontecer), morar no Barreto (bairro distante em Niterói), ela julga ser radiante, carismática e bonita, só que além do que sua “classe social” permite. Com isso, Rosângela sempre busca formas internas de tentar se colocar acima de Daniele, mas isso a leva a uma crise existencial profunda.

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A arte de Marcello Quintanilha mais uma vez captura muito bem o ambiente e as pessoas que vivem nele. Em Talco de Vidro, a história se passa em Niterói (RJ).

Quintanilha escreve a mente de Rosângela de forma muito interessante. Como em Tungstênio, ele entra na mente da personagem e esmiúça o que ela pensa de forma pessoal, mas como um narrador externo que conhece exatamente como as coisas funcionam dentro da cabeça de Rosângela.

No entanto, aqui há uma grande repetição dos pensamentos, o que dá à linha de raciocínio um aspecto de ser um pensamento rejeitado pela própria Rosângela, além do narrador sempre repetir que ela negava realmente pensar aquilo e “gaguejar” por assim dizer.

Uma coisa muito interessante de se notar é que diversas metáforas que normalmente seriam apenas textuais acabam se tornando visuais, o que faz o ritmo mais lento do quadrinho ser mais efetivo ao leitor quando ele se depara com momentos surrealistas visualmente.

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As metáforas visuais são muito bem pensadas e têm grande significância durante o desenvolvimento do enredo

Também vale mencionar que o desenvolvimento de Rosângela por todo o enredo do HQ é muito bem feito. Sem spoiler, mas a personagem muda bastante do início até o fim e faz coisas que, no começo do enredo, não consideraria de forma alguma. O mundo muda bastante ao redor dela também, com o passar do tempo, deixando-a sempre “desarmada”, de certa forma.

Pessoalmente, eu tive um pouco de dificuldade com esse quadrinho. Apesar dele não ser lá muito comprido, o ritmo se apresentou como um desafio para mim, justamente porque vira e mexe a narrativa remói muitos momentos passados. Talvez seja intencional, mas a sensação que eu tive foi de um certo cansaço depois de um tempo. Mesmo assim, foi uma leitura bem legal.

Talco de Vidro foi lançado em 2015 pela editora Veneta.
Eu comprei ele por aqui.